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Mostrando postagens de Janeiro, 2015

Tiganá Santana pelo olhar de Vincent Moon

O angolano e o pós-guerra em Os transparentes, de Ondjaki

Ondjaki na Flica 2014 - foto: Egi Santana

"(...) todos os angolanos tinham alguma paranoia com armas ou armamentos, todos tinham um estória para contar que envolvia uma arma, uma pistola, uma granada ou pelo menos uma boa estória que envolvesse um tiro, ou uma rajada de tiros, alguns tinham cicatrizes no corpo, outros atribuíam a cicatrizes várias os impressionantes episódios que efabulavam por força de necessitarem deles,


um modo, digamos assim, coletivo de vivenciar a guerra e os seus episódios, os combates e as suas consequências, mesmo que fosse de ter ouvido falar, ou de se ter escutado na rádio, antigamente, nos dias em que a guerra de facto havia sido um elemento cruel mas banal da realidade e, ainda hoje, dissociar a guerra do quotidiano era quase um pecado


e de arma em arma, de tiro em tiro, de conversa violenta em brutal descrição, o fantasma da guerra circulava livre - em cada canto de Angola, nalgum momento, ainda que fosse nos primeiros instantes das manhãs mais limp…

Seleta: Peter Tosh

Álbuns de Peter Tosh participantes desta Seleta

Peter Tosh (1944–1987) sempre foi um dos Wailers prediletos. Seu tom de voz, mais grave, mais rock'n'roll, cheio de atitude; sua postura de combatente, alto e de cara fechada, contestador, de composições sobre a sua fé e questões sociais, e o seu destino trágico (assassinado por um zé ninguém), sempre me fascinaram. Após formar os Wailers originais com o rei Bob Marley e Bunny Wailer, jamais poderia ficar à sombra do mestre maior e foi seguir a tua breve, mas interessante carreira solo, com músicas sensacionais como Bush Doctor, Mystic Man, Pick Myself Up, Crystal Ball e Legalize It, entre outras. Na Seleta de hoje, as 37 melhores faixas da obra de Peter Tosh, do período de 1976 a 1987, na opinião do fã Emmanuel Mirdad, presentes em 8 álbuns disponíveis na página do artista no site Grooveshark. Para escutar, baixa clicar no player abaixo.



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Repertório da Seleta Peter Tosh, de 1976 a 1987:

0…

Pílulas dos livros de Mayrant Gallo (1999 a 2014)

Mayrant Gallo (fotos de Cosac & Naify, Ricardo Prado, Vinicius Xavier, Lima Trindade,  Elieser Cesar, Gal Meirelles e divulgação - interferidas por Mirdad)

A seção Pílulas se despede do Blog do Ël Mirdad apresentando fragmentos de 11 livros do escritor baiano Mayrant Gallo, que tanto admiro. Em 2002, graças ao livro Pés quentes nas noites frias, decidi escrever ficção - até então, só produzia poemas. Entre 2011 e 2013, na Putzgrillo Cultura, produzi o projeto que culminou no lançamento do romance Os encantos do sol, patrocinado pela Petrobras e Minc/Governo Federal. Em 2014, Mayrant revisou meu livro de contos O grito do mar na noite, e ampliamos a parceria; ele continuará revisando meus livros, além de editá-los - detalhes em breve. E em 2015, montei uma antologia de contos de Mayrant Gallo intitulada de O abismo cor de chumbo, e participarei do projeto para publicá-la, visando uma grande editora nacional - considero o autor o melhor em atividade na Bahia.

Entre o final do ano pas…

Marca Emmanuel Mirdad

Possíveis títulos retirados da obra de Mayrant Gallo

Mayrant Gallo na Flica 2011 - Foto: Vinicius Xavier

"O emblema turvo do fim"
 O inédito de Kafka - pg. 59

"O abismo cor de chumbo"
 Brancos reflexos ao longe - pg. 28

"O apagamento irremediável das cicatrizes"
 Pés quentes nas noites frias - pg. 40

"A nudez esclarece as pessoas"
 Pés quentes nas noites frias - pg. 31

"Uma sensação de inútil suficiência"
 O inédito de Kafka - pg. 50

"Uma escada rumo ao cinismo"
 Pés quentes nas noites frias - pg. 116

"O arredondamento vazio do grito"
 Cidade singular - pg. 18

"Gestos passivos diante da dor e do infortúnio"
  O inédito de Kafka - pg. 91

"Uma passagem firme e sem incidentes aos corredores do insondável"
  Cidade singular - pg. 47

"O impulsivo desejo de ridicularizar tanto o indivíduo quanto a espécie"
 Brancos reflexos ao longe - pg. 80

"Os dias existem para uma irremediável perda"
 Brancos reflexos ao longe - pg. 95

"Uma quase instant…

Seleta: Israel Vibration

Álbuns do Israel Vibration participantes desta Seleta

Originalmente um trio jamaicano formado nos anos 1970, o Israel Vibration continua na ativa e promete um novo álbum para 2015. Apple Gabriel, meu vocalista predileto, saiu em 1997 para seguir em carreira solo, irregular, mas, pra mim, é uma das vozes mais peculiares do reggae de todos os tempos, um timbre impressionante, eternizado em clássicos do Israel Vibration como Ambush, Why You So Craven e Real and Right, entre outros. Na Seleta de hoje, as 55 melhores faixas da obra do Israel Vibration, do período de 1978 a 2010, na opinião do fã Emmanuel Mirdad, presentes em 13 álbuns disponíveis na página do trio no site Grooveshark. Para escutar, baixa clicar no player abaixo.



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Repertório da Seleta Israel Vibration, de 1978 a 2010:

01) Ambush - On the Rock (1995)

02) Why You So Craven - Why You So Craven (1981)

03) Real and Right - Praises (1990)

04) Jah is the Way - Why You So Craven (1981)

05)

Pílulas: O gol esquecido, de Mayrant Gallo

Mayrant Gallo (foto: Vinicius Xavier - interferida por Mirdad)

"Ademir era negro. Feito da dor e do cheiro das senzalas multiplicadas em favelas e bairros erguidos sobre paus finos em alagados fétidos. Atrevido, ria branco dos defeitos dos outros. Dos seus também. Controlava a bola do mesmo modo que alguém movimenta os olhos, sem se dar conta, por um sutil e incompreensível comando que remonta aos primórdios da vida, no borbulhar dos primeiros pântanos. E havia momentos em que a bola e seus olhos, na vastidão verde, assemelhavam-se a um solitário planeta com seus dois satélites. A estranha órbita compunha-se da leitosa parábola rumo ao gol e do percurso de volta, ao meio de campo, por entre corpos adversários batidos e faces cabisbaixas, humilhadas.
– Ninguém para esse cara!
– Admirável Ademir! – teria dito Armando Nogueira, se o visse jogar" (pg. 37)

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"Assombrava-me a afirmação de que o que acontece já aconteceu. De que o presente foi, o futuro é, e o passado…

Pílulas: As aventuras de Nicolau & Ricardo: detetives, de Mayrant Gallo

Mayrant Gallo (foto: Vinicius Xavier - interferida por Mirdad)

"Nicolau e Ricardo foram chamados para resolver um caso numa cidade do interior – Póci. A cidade era tão pequena que não havia delegacia. Quer dizer, a delegacia funcionava num anexo da prefeitura, também residência do prefeito.
'E onde está o delegado?', perguntou Nicolau.
'Sou eu mesmo', respondeu o prefeito.
Nicolau e Ricardo se entreolharam.
'E o corpo policial? O senhor tem um corpo policial, não tem?', perguntou Ricardo.
'Tenho sim, minha guarda pessoal, formada pelos meus três filhos.'
Novamente os olhares dos detetives se encontram.
'E, afinal, quem morreu?', suspirou Nicolau.
'Minha mulher.'" (pg. 22)

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"Culto o bastante para se exibir sem se fazer notar, mas insensato ao ponto de prescindir de alimentar relações que sabia consistentes e desinteressadas, mergulhava em livros e filmes por um motivo bem simples e nada sutil: para se afastar das …

Pílulas: Três infâncias, de Mayrant Gallo

Mayrant Gallo (foto: Divulgação - interferida por Mirdad)

"Eu olhava os garotos com curiosidade. Já eles, não me olhavam. Por que olhariam? Estavam tão acostumados a si mesmos que não perceberiam nem sequer um aleijado. Por eles, o mundo bem que poderia ser só aquilo, um prédio murado com um portão de ferro que raramente transpunham (...) Mas, entre as diferenças que se nos interpunham, uma ao menos soava a meu favor, sim, e era a única, e foi com ela que eu cresci: meu mundo era o eco dos meus passos sobre caminhos novos" (pg. 27)

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"Tinha uma voz que jamais perdia de todo o poder de arrebatar. Nem mesmo, talvez, quando enfraquecida pela rouquidão de um resfriado ou pelo incômodo de um choro que se prolongou para além do normal (...) Tinha o atributo ilimitado de sempre estar presente, e reservavam-lhe vida eterna, para além da matéria e da morte, todos os homens que a viram por um só instante, num relance. Fui um desses seus adoradores de primeira ordem. Não …

Pílulas: Brancos reflexos ao longe, de Mayrant Gallo

Mayrant Gallo (foto: Gal Meirelles - interferida por Mirdad)

"– Muito prazer, eu sou a morte.
A mulher não lhe estendeu a mão, nem disse nada, nem sequer lhe voltou o rosto. Por um instante a mão da jovem, dispersa no ar, tremeu misteriosamente para, em seguida, recolher-se ao trabalho de afastar do rosto os fios de cabelo rebeldes, assanhados pelo vento.
– E se eu for mesmo a morte? – disse, o rosto a gozar do frescor úmido que subia dos arrecifes golpeados pelo mar.
(...)
– Mas você não é – a mulher respondeu, um sorriso enigmático a distender-lhe os lábios finos, sem cor.
– Sim, não sou. Mas, e se eu fosse?
A mulher enfim a encarou:
– Eu a aceitaria. Que mais poderia fazer?" (pg. 29)

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"(...) seu destino mudara, embora continuasse o mesmo" (pg. 27)

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"Perceba: no seu livro tudo é tão real, tão demasiadamente real, que soa falso, ou, melhor dizendo, fantástico. Espécie de simulação do real. A representação exagerada não passa de uma simulaç…

Pílulas: O inédito de Kafka, de Mayrant Gallo

Mayrant Gallo (foto: CosacNaify - interferida por Mirdad)

Descrição extraída do site da CosacNaify:

"O livro de estreia do autor soteropolitano Mayrant Gallo compõe-se de quinze narrativas ambientadas em uma Salvador sombria e suja. Os contos foram iniciados em 1997 e depurados continuamente em sua coloquialidade paradoxalmente mesclada à densidade de seus personagens, sendo finalizados em 2003. A história que dá título ao volume aborda o tema clássico do Döppelganger, a duplicação: o narrador anônimo prepara-se para um encontro com seu duplo - que, como ele, está à procura de um livro inédito de Franz Kafka"



Parte I
Leia aqui

"(...) sempre tem alguém que faz antes de nós o que pensamos fazer"






Parte II Leia aqui
"O homem não pode sobreviver além do limite imposto pelo tempo, pela dor ... tudo, toda ação é, portanto, uma peça a mais montando o emblema turvo do fim" 



Parte III Leia aqui
"O cheiro do combustível queimado enchia o ar. Todos por ali, os morad…

Pílulas: Dizer adeus, de Mayrant Gallo

Mayrant Gallo (foto: Divulgação - interferida por Mirdad)

"Sempre preferi as mulheres às expressões de virilidade em meio aos homens ... Ainda hoje não troco um corpo de mulher por uma partida de futebol" (pg. 26)

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"Estávamos na idade do amor ao estranho, da curiosidade pelo mórbido, do prazer pelo insólito. Descortinávamos o mundo e seus segredos. O meio das pernas de Mônica, há pouco, não era mais belo que aquele corpo em agonia. E que de súbito se imobilizou. E a nós três, simultaneamente, à sua volta. Mônica começou a chorar, vítima de uma inesperada compreensão ... De minha parte, tentei demonstrar calma, controle, uma austeridade que sempre me faltou. Tentei sobretudo aceitar o fato de que nossas vidas nunca mais seriam as mesmas. Foi então que vi a pá ao lado do corpo e compreendi seu uso" (pg. 28)

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"Sempre é tarde demais na vida para alguma coisa" (pg. 95)

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"Ela adorou o esqueleto do gato. Ficou ajoelhada diante …

Pílulas: Pés quentes nas noites frias, de Mayrant Gallo

Mayrant Gallo (foto: Ricardo Prado - interferida por Mirdad)

"Ninguém foge da morte, do tempo, da velhice, tríade de canalhas numa trama que quer, a qualquer custo, o homem ... Impossível fugir deles. São implacáveis e estão em todas as épocas e todos os lugares. A morte reina absoluta, livre de rivais; o tempo é paciente e pouco se importa se é hoje ou amanhã; e a velhice, velha e exigente costureira, não tem pressa nenhuma de acabar sua rede de rugas. E assim vão vivendo, devastando o homem, que quanto mais foge mais se entrega" (pg. 12)

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"– Ontem nada, amanhã silêncio" (pg. 18)

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"A nudez esclarece as pessoas" (pg. 31)

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"Os fracos pulam de mulher em mulher e acabam exaustos, amargos, cínicos. O sexo é no fundo uma escada rumo ao cinismo" (pg. 116)

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"O corte no dedo, por sua vez, não deixara marca alguma. Quando o marido, no auge do desejo, o beijava, não percebia nada, nenhuma protuberância que o fi…

Pílulas: Parte 03 - O inédito de Kafka, de Mayrant Gallo

Mayrant Gallo (foto: CosacNaify - interferida por Mirdad)

"O cheiro do combustível queimado enchia o ar. Todos por ali, os moradores, deveriam trazê-lo entranhado no corpo. Não havia perfume que o apagasse, nem banho, nem sopro de amor, suor, esperma. Já era parte. Algo que os marcava e sem o que não pareceriam autênticos, pessoas" (pg. 89)

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"A torre da estação da Lapa se erguia contra o céu, riscava nele sua forma rígida. Tentava escapar, furá-lo, cheia de ódio de estar presa há tanto tempo assim pelos cabos que mais pareciam tentáculos. O arquiteto que a projetou não imaginou que um dia até mesmo o concreto sem consciência se revolta contra a imobilidade e a desilusão, e naturalmente se fende. Caso contrário, teria proposto sua construção em material mais flexível, macio e mutável, para que sob o sol adotasse novas formas, se expandisse, se encolhe, se dobrasse" (pg. 89)

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"Com os movimentos que fazia ao se barbear, se perfumar e abrir a p…

Pílulas: Parte 02 - O inédito de Kafka, de Mayrant Gallo

Mayrant Gallo (foto: CosacNaify - interferida por Mirdad)

"O homem não pode sobreviver além do limite imposto pelo tempo, pela dor. Não pode suplantar a morte, se manter jovem e viril. Tudo o que o homem faz é porque já o traz embutido; tudo, toda ação é, portanto, uma peça a mais montando o emblema turvo do fim" (pg. 59)

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"Sem dúvida que ainda se encontrava longe de ser reduzido a ruínas, mas já possuía muitas fendas, como uma parede de compleição débil que a duras penas suportasse excessivo peso, e das quais a pior era aquela, ser só, de virar o rosto pela manhã na cama e não ver nenhum outro o olhando, ou então de apenas se prolongar a dormir, alheio ao tempo e à força da vida" (pgs. 47 e 48)

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"Não, ele não tinha visto. Pouco olhava a cidade. Passava reto por ela, como a maioria das pessoas. Por isso é que quando enriquecem viram turistas. Vão olhar no exterior ou em outras cidades do próprio país o que nunca viram em sua própria cidade …

Pílulas: Parte 01 - O inédito de Kafka, de Mayrant Gallo

Mayrant Gallo (foto: CosacNaify - interferida por Mirdad)

"(...) sempre tem alguém que faz antes de nós o que pensamos fazer" (pg. 185)

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"Ele era para ela como uma parede branca e lisa, um vaso de plantas num canto, um quadro sem cor e inexpressivo, comprado ao acaso e pendurado sem gosto numa sala igualmente sem gosto, alguém velho que move solitário as cartas de um surrado baralho, recluso à ensebada mesa de madeira de um vazio corredor de entrada, e por quem se passa como por um saco de entulho abandonado ao pé de um poste... Ele não a atrairia nem que fosse o último da espécie" (pg. 144)

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"Dois não podem ser um: não há número este redutível por si mesmo que dispense um agente; e o agente é a dor, ou o amor, a morte... Compreendi isso muito bem e, com a inabalável certeza de que não me arrependeria, decidido a não sofrer, a não levar tão longe o conhecimento do mistério, dei as costas para mim - reciprocamente" (pg. 193)

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