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Mostrando postagens de Março, 2015

Perdi o meu mestre Hélio Pólvora

Com o mestre na Bienal em 2013. Foto: Edmilia Barros

Meu mestre, um gênio, um intelectual primoroso, um escritor de estilo único, um homem refinado, uma biblioteca de extensos volumes, o grande e hábil escultor do conto, Hélio Pólvora, faleceu hoje de madrugada. Luz, saudades extremas!

A última vez que estive com o mestre, junto com o amigo e também mestre Mayrant Gallo, foi em janeiro passado. Conversamos sobre literatura e cinema, e lhe mostrei a boneca do meu livro O grito do mar na noite, dedicado a ele. Não deu tempo pra lê-lo, mas ele ficou contente com a singela homenagem. Pois a sua obra permanece, e as boas lembranças também. E não há um dia sequer em que eu não revise meu trabalho com a sua esfinge ao meu lado me dizendo: melhora isso aí, Mirdad! - algo que a sua honradez nunca fez com palavras. Mayrant escreveu um belo texto em seu blog relembrando o encontro, leia aqui

De toda a obra do mestre Hélio Pólvora que li, o trecho abaixo é o que mais me impactou, retirado do cont…

Gonçalo M. Tavares e a morte

Gonçalo M. Tavares na Flica, por Egi Santana

"O que existia era, sim, a manifestação de uma eficácia impressionante por parte daquele mecanismo a que chamamos enterro. Cada pessoa que chorava, e algumas tinham sido vistas a baixar a cabeça, chorava não pelo morto mas pelo ruído que as rodas daquele mecanismo libertavam. Havia, tanto nas palavras religiosas quanto nos gestos quase universais dos soldados a baixarem o caixão em direcção à terra, a fixação num ponto que era comum e não já individual. Esse ponto que unia a comunidade dos presentes era a sensação de que cada um deles poderia, no dia seguinte, ser o morto que os outros homens respeitam. Chorava-se em conjunto pelo fracasso da cidade: ainda não se encontrara antídoto para aquele ruído que parecia ser libertado em cada enterro. Cada homem reivindicava que a morte – e o seu sistema de funcionamento – terminasse antes de chegar a si. E em cada funeral a despedida do morto era também o relembrar de um fracasso comum, de um …

Emmanuel Mirdad saiu da curadoria da Flica

Aurélio Schommer na Flica 2014 - Foto: Egi Santana

A partir de 2015, não faço mais parte da curadoria da Flica. Apenas o meu amigo Aurélio Schommer é o curador (que define a programação literária principal) do evento. Atuei ao seu lado de 2012 a 2014, e foi uma experiência gratificante, a qual destaco ter trazido o mestre angolano Pepetela em 2013 e Mãe Stella de Oxóssi como a primeira escritora homenageada da Flica em 2014. Continuo como Coordernador Geral, ao lado de Marcus Ferreira e da iContent, e serei o responsável pela direção geral durante a execução do evento, que sempre fiz desde 2011, mas agora estarei só nessa função. Boa sorte, meu caro Aurélio, você sempre foi capaz nessa função e vai tirar de letra! Assim como na primeira edição em 2011, a curadoria é só sua agora. Aláfia!

Gonçalo M. Tavares e o homem que deseja ser grande

Gonçalo M. Tavares na Flica 2014, por Egi Santana

"Será possível que este homem, que agora se cruza comigo na rua, será possível que este rosto perfeitamente informe, que não conheço, que não evidencia nenhum traço mágico ou de força invulgar, será possível, enfim, que este rosto que é como que a repetição de milhares de outros rostos, este rosto interminável, porque grotescamente comum, será possível que por detrás deste rosto esteja um homem que deseja ser grande, e que acredita que isso ainda é possível?"


Presente em A máquina de Joseph Walser (Companhia das Letras/2010), pg. 125.

Três passagens de Gonçalo M. Tavares em A máquina de Joseph Walser

Gonçalo M. Tavares na Flica 2014, por Egi Santana

"Os períodos em que existe medo são utilizados não apenas para sobreviver: também para as paixões efusivas. Mas se a qualidade de uma geração se mede pela qualidade das frases que quem seduz utiliza, então aquela era, sem dúvida, uma geração medíocre."

"Em comparação com a administração de um país, individualmente, em tempo de guerra, cada homem, por si, como que fundava um Ministério da Normalidade, que impunha, essencialmente, repetições. Porque só as repetições acalmavam, só as repetições permitiam a cada indivíduo voltar a encontrar-se humano no dia seguinte. Repetições de actos ou de pequenos gestos, de palavras ou de frases banais – repetições até de actos não visíveis, não registáveis pelos outros, como imagens e memórias do cérebro –, tudo isso permitia a cada um sobreviver no meio da confusão, resistir no meio do reino da desordem"

"Você é de uma eternidade espantosa, é uma cópia perfeita, neste lado, …

Site Emmanuel Mirdad

Está no ar o meu site!
Webdesigner de Bruno Senna, programação e sistema de Allie Poldermans, conteúdo e design meus.
Acesse: mirdad.com.br

Gonçalo M. Tavares e as mãos nos bolsos

Gonçalo M. Tavares na Flica 2014, por Egi Santana

"(...) Como era estranho aquele seu gesto de esconder as mãos nos bolsos. As mãos e os olhos eram o fundamento da guerra: sem mãos é impossível odiar, odeias pelas pontas dos dedos, como se estes fossem o canal habitual e único de uma certa substância química má. As mãos nos bolsos são um processo de educar o ódio (...) só com as mãos nos bolsos os homens já acalmam."


"Com as mãos nos bolsos um homem percebe que não é Deus. Não se chega às coisas. Se tocares no mundo com a cabeça obterás desse toque sentimentos secundários; afastados de uma intensidade mínima a que a existência das mãos te habituou. As mãos tornam-te intenso. O obsceno - isso mesmo -, o obsceno que é o homem que na guerra, mesmo que numa pausa, põe provocadoramente as mãos nos bolsos. Assumir que não se é Deus em momento de guerra é acto corajoso e, por estranho que pareça, o único divino. Só os cobardes fingem que são Deus."


Presente em Um homem: Kl…