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Os dez melhores poemas da revista Organismo #03

Diga trinta-e-três
Angélica Amâncio

Ontem
33 caralhos
invadiram o corpo
doído e dopado
de uma menina de 16 anos
na cidade maravilhosa.

No Brasil,
a cada 11 minutos,
uma mulher
é violada
– são 9
no tempo
de uma partida de futebol
com acréscimos.

50 mil mulheres
são as que declararam
terem sido violentadas
no espaço
de 12 meses
num beco
num quarto de criança
numa cama de casal
com crucifixo em cima.

Outras
90%
se calam
já que
dos estupradores
6%
em 26 estados
e um distrito federal
são levados a julgamento.

Ontem
33 caralhos
invadiram o corpo
dopado e doído
de uma menina de 16 anos
na cidade maravilhosa.

Hoje
33
é um número doente.
Seria menos triste
se tivessem sido 33 tigres
33 tubarões farejando sangue
33 ratos de esgoto...
Mas eram homens.

--------

O deserto vermelho
Simone Teodoro

Em minha solidão
mora um mar
de água transparente
e uma praia carmim

Como num filme
de Antonioni

Chego ao mesmo
tempo que o Sol
Parto quando a luz escapa
por uma fenda
no céu

Em minha solidão
moram coelhos se…
Postagens recentes

Os melhores versos do poema Umbigo, de Nicolas Behr — Parte 05

Nicolas Behr - Foto: Divulgação
“minha poesia sabe que todas as verdades são falsas”

“minha poesia se torna presente na ausência”

“minha poesia corre pro abraço, cai, quebra a cara”

“minha poesia é explosão vulcânica pra dentro”

“minha poesia é a casca tatuando o corpo da árvore”

“minha poesia perde as folhas e aí dá sombra”

“minha poesia fala através das próprias ruínas”

“minha poesia já foi longe demais. melhor voltar”

“minha poesia decreta: amai-vos uns aos outros
e o resto que se foda”

“minha poesia têm um papel higiênico a cumprir”

“minha poesia é uma palavra que resolveu ter cor”

“minha poesia faz com os pés o autoexame dos seios”

“minha poesia tem estilo. o problema são as moscas”

“minha poesia é colagem, miragem, ilusão, efeito”

“minha poesia seca as mãos com água, limpa as
mãos com terra, corta as mãos com agulha”

“minha poesia admira a paisagem dos elevadores”

“minha poesia são palavras frias que são flores secas
que são frutos podres que são árvores mortas”

“minha poesia é …

Cinco poemas e três passagens de Izabela Orlandi no livro Vão dos bichos

Izabela Orlandi - Foto daqui

Izabela Orlandi

era claro e havia o bicho
e só quando escuro
havia o homem

era claro e havia o silêncio
e só quando escuro
havia a palavra

você insistiu
em negar todas as noites
e a exatidão
me perguntava
todos os significados

mas eu te fiz o escuro
de olhos abertos
sente só: o ar que eu
passei entre os seus dedos,
só assim é bicho e homem
é silêncio e palavra

e mar

--------

Inevitável
Izabela Orlandi

Visito à noite um cemitério,
se aqui você pudesse me tocar
sem palavras
sem objetivo
sem relógio
espreitando a morte
celebraríamos a vida?

Aqui me dispo dos toques que guardei
e inebriada pelo álcool
o cheiro da morte
escorre fervendo
pela pele.

Por estar sozinha
se torna secreto
o visível gozo
da fuga.

(já se desfaz a lembrança de onde estamos.)

Mal-me-quer
bem-me-quer:

Sei que você não enxerga
nenhuma flor aqui.
(eu destruí todas)

Se desfaça com calma
da brasa que te queima
e faz viver a sua eterna
coleção de memórias.

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Paisagens
Izabela Orlandi

A casa s…

Mapa de influências de Emmanuel Mirdad

Achei interessante o viral da vez, e resolvi testar também. Seguem abaixo as minhas principais influências na literatura, música, cinema e série audiovisual (pelo menos as que eu me lembrei enquanto montava os mosaicos). Se quiser brincar também, o link é esse aqui (mas você vai ter que baixar no Google as fotos ou as imagens das influências).

LITERATURA

MÚSICA

CINEMA


SÉRIE AUDIOVISUAL

Seleta: Puddles Pity Party

Puddles Pity Party - Foto daqui
O cantor que mais admiro no momento é um palhaço triste: Puddles Pity Party. Interpretado pelo cantor, músico e ator norte-americano Big Mike Geier (Philadelphia, 1964), um talentoso gigante de mais de 2 metros, apresenta-se em vídeos curtos no YouTube, com uma excelente resposta de público para um artista independente (atualmente, o canal Puddles Pity Party tem mais de 47 milhões de views e mais de 350 mil inscritos), interpretando canções reconhecidas como Wish You Were Here, do Pink Floyd (primeiro vídeo que conheci o seu trabalho) e Losing My Religion, do R.E.M., seja num café voz e violão, ou com banda completa. Estou muito fã do timbre grave da sua voz, e a interpretação precisa, na dosagem do encanto. Aproveitei e fiz uma seleta com as melhores 34 canções interpretadas por Puddles Pity Party. Clique no nome das músicas e escute no YouTube:

01. Wish You Were Here (Pink Floyd)

02. The Sound of Silence (Simon & Garfunkel - Versão Disturbed)

03.

Os dez melhores poemas da revista Organismo #02

Izabela Orlandi

eu sempre te disse que queria morrer
em um lugar devastado como dentro
do seu útero.

um lugar sem som em que meus olhos
encarassem o vazio que vi
enquanto você adormecia

eu tenho certeza que sentiria
o mesmo prazer de quando senti
o seu pau e a noite e você
sentiu os meus braços
e a essência

eu tenho certeza que essa morte seria
vazia e nossos restos não produziriam
mais um único
som

nós estaríamos mais próximos da carne
e não a usaríamos como desculpa
obrigação e refúgio

neste lugar colaboraríamos com o silêncio
como sempre desejamos em vão

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Chapeuzinho Vermelho
Carollini Assis

Enquanto seu lobo não vem,
visito o lenhador.

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Cântico dos cânticos
Lívia Natália

Sua boca banha minha outra boca
nela, os lábios desabrocham
como pétalas perfumosas.
Sua boca banha minha outra boca,
enquanto minha mãos rasgam,
no ar,
as sutilezas.

Sua língua lambe minha palavra mais secreta
que, ereta,
canta o vigor desta estação.

Sua língua dança numa conversa matreira,
mergulhada…

Cinco poemas e três passagens de Ruy Espinheira Filho no livro Babilônia e outros poemas

Ruy Espinheira Filho - Foto: Marina Silva

O passado
Ruy Espinheira Filho

É verdade,
escrevo muito sobre o passado,
porque nele é que está tudo em seu lugar
e ninguém se foi.

O passado.
Que é, na verdade,
o que possuímos,
pois o presente acabou de passar
e o futuro é um sonho que jamais alcançaremos
simplesmente pelo que é:
futuro.

É, enfim, o que temos,
o que somos:
o passado.
Que, como se sabe, sendo passado,
não passa.

E às vezes é doloroso,
como aquela janela alta de onde nunca desceram
sobre mim
os longos cabelos da amada.
Que não me amou, mas,
por isso mesmo, se fez musa
por toda a vida.

O passado.
Que é também o que um dia
morreremos,
quando morrermos
de verdade.

No meu caso,
subindo pelos longos cabelos lançados
da mais alta janela
sobre mim.

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Importância
Ruy Espinheira Filho

Há os que chegam
ao momento em que dizem,
com verdade,
que já mais nada importa.

Com verdade, sim, acredito.
Mas eu, se disser a mesma coisa,
certamente não será
com verdade.

Porque me importar é
da mi…