Pular para o conteúdo principal

Pílulas: Parte 04 - Padre poeta Daniel Lima

Daniel Lima (foto: Cepe/Divulgação - interferido por Mirdad)


"A vida é mais pressentimento, antecipação,
sonho de profeta alucinado e sonâmbulo,
que acontecida visão de olhos reais e limpos.
É ser navio ao mar,
mas é antes ser mais em tempestade
que aos rochedos atira o desamparado navio;
mas é ser antes a própria tempestade
que açoita o mar, jogando-o aos rochedos;
mas é ser antes rochedo aonde se esbatem
as agitadas ondas
e os náufragos que sobram desse açoite
e os restos do navio"


"As casas correram loucas pela rua afora
derretidas de luz e de perfumes
e o sol se liquefez em leite e som.
Do céu caiu um jarro de agonias
e do dedo um anjo distraído
dois pedaços de anéis caíram ao chão.
Realidade, filho meu, é isto.
O resto é ilusão"


"A noite é tão escura, tão escura
que eu quase escuto o tempo
pingando a minha vida gota a gota.
E não posso dormir.
Sinto a minha vida saqueada
pelo som ritmado do relógio.
Acendo a luz,
fecho o relógio no armário,
apago o tempo.
E durmo"


"O intelectual é um urubu
que se julga vestido,
mas que está nu,
com uma pena de pavão
enfiada
no cu"


"Sei que o que sei de mim
é quase o avesso
do que penso que sou.

E isto me dói
e isto me acusa,
mas isto me sustenta"


"Procuro com obstinação
a curva que se esconde
dentro da reta
e o infinito que há
nos teus limites"


Daniel Lima 
(2011/Cepe)

"Ontem de tarde
senti que dentro de mim
carrego um esqueleto.

Arrepiei-me todo.
E não pude dormir.

Mas hoje dormirei.
Aceitei o esqueleto.
Sei que não veio a mim como um visitante ou um hóspede.

O esqueleto sou eu"


"Sou dois.
Sou muitos.
De repente, sou nenhum.

Às vezes sinto uma vontade enorme
de um dia ser um"


"Quero ser protegido,
sinto-me estrangulado.

A indesejada proteção sufocante.
O amor que ama, que perturba
e impede o voo e mata

As portas da casa me defendem
das invasões do mundo.
As invasões que me faço são piores.

As fantasias, os sonhos bloqueados entre
paredes.

Em casa não vejo o sol,
em casa adoeço
de tanto estar em casa, só comigo.
(Um dia a gente se cansa
de tanto se parecer consigo mesmo
todo dia)

Sei que em casa estou morrendo.
O ar de casa é puro, mas é morno,
é puro demais para a alma impura
da gente (falo de mim)

Estou farto de tanta segurança.
Para isto nasci: encontrar-me nos outros"


"Amo a minha pátria.
Mas que pátria é minha?
Esta que agora sofro é dos ladrões,
e não dos pequenos ladrões
que apenas recuperam
o que lhes foi furtado
pelos grandes ladrões
de brancos colarinhos
e cívicos discurosos de mau gosto.

Este é o triste País dos Gatunos Oficiais.

Enquanto isto,
almoço fartamente todos os dias.
Sinto-me comodista.
E vou dormir.

Sou gatuno menor.
Vivo das sobras dos banquetes
dos grandes gatunos nacionais"

Comentários

Francis Juliano disse…
Muito bom, Mirdad. Não conhecia esse cabra até vc postar trechos de poemas dele. Grande, esse cara.
Mirdad disse…
Massa, Francis, é bacana mesmo. Conheci na Piauí, rs. Abs.
Romulo Bandeira disse…
Conheçi bem o Padre Daniel Lima, fomos vizinhos além do mesmo, Junto com Célia Caldas Vovó, ter criado hoje minha esposa, tenho todos os livros manuscritos, tivemos muitas conversas, um gênio! Um poeta! Uma grande figura.
Mirdad disse…
Obrigado pela visita e por compartilhar sua amizade com o grande poeta. Abraços!

Postagens mais visitadas deste blog

O grito do mar na noite no site do jornal Rascunho

Resenha do livro O grito do mar na noite (Via Litterarum, 2015), publicada no Rascunho #192, de abril de 2016, por Clayton de Souza, disponível para leitura no site do jornal.

Leia aqui

A mesma resenha na versão impressa do jornal aqui

Foto do autor: Sarah Fernandes

Cinco poemas e três passagens de Ana Martins Marques no livro Da arte das armadilhas

Ana Martins Marques (foto daqui)

Espelho
Ana Martins Marques

                                     d’après e. e. cummings

Nos cacos
do espelho
quebrado
você se
multiplica
há um de
você
em cada
canto
repetido
em cada
caco

Por que
quebrá-
-lo
seria
azar?


--------


Teatro
Ana Martins Marques

Certa noite
você me disse
que eu não tinha
coração

Nessa noite
aberta
como uma estranha flor
expus a todos
meu coração
que não tenho


--------


Penélope
Ana Martins Marques

Teu nome
espaço

meu nome
espera

teu nome
astúcias

meu nome
agulhas

teu nome
nau

meu nome
noite

teu nome
ninguém

meu nome
também


--------


Caçada
Ana Martins Marques

E o que é o amor
senão a pressa
da presa
em prender-se?

A pressa
da presa
em
perder-se


--------


A festa
Ana Martins Marques

Procuramos um lugar
à parte.
Como se estivéssemos
em uma festa
e buscássemos um lugar
afastado
onde pudéssemos
secretamente
nos beijar.
Procuramos um lugar
a salvo
das palavras.

Mas esse
lugar
não há.


--------


"Um dia vou aprender a partir
vou partir
como qu…

O fim do Blog do Ël Mirdad

Esta é a última postagem do Blog do Ël Mirdad (que um dia já foi Farpas e Psicodelia). Ao fim, foram 1.083 postagens em 8 anos de atividade, de 2009 a 2016. Divulguei o trabalho de muitos artistas, nas áreas da música, literatura e audiovisual (eventos, shows, quadrinhos, etc.), e também o meu trabalho como compositor, escritor e produtor cultural. Das seções que fiz, a que mais me orgulhou foi Leituras. Abaixo, seguem duas imagens com estatísticas que o próprio Blogger oferece, apuradas em 22 de dezembro. O motivo para o fim desse blog é que não assinarei mais como Emmanuel Mirdad, e não tem lógica manter um canal de comunicação vinculado a esse nome.


Algum dia farei outro blog? Acho difícil. Caso faça, divulgarei apenas o meu trabalho como escritor, o único que continua, assinando, a partir de 2017, como Emmanuel Rosa.


Muito obrigado pela sua audiência. E espero que o Google mantenha esse acervo ativo, para quando você quiser voltar por aqui e ler (ou ouvir) algo que lhe agradou, d…